terça-feira, 24 de março de 2009

24º alvorecer - Haikai e as lições naturais (parte 11)


tarde vibrante

circundam cigarras

canto feliz

23º alvorecer - Haikai e as lições naturais (parte 10)





outono mais belo.
o ouro da mata na copa
do ipê amarelo.

segunda-feira, 16 de março de 2009

22º alvorecer - Enlouquecido

Mesmo cercado pelo amor de minha esposa, filhos, pais, parentes e amigos e tendo passado espremido pelo filtro dos tempos chegando inteiro até aqui, devo confessar: fali minha esperança, minha auto-estima!

Não quero alimentar o desespero nos outros, me tornar um leito caudaloso de desgraças que traga a todos que atravessam meu caminho; não reclamo a desafortunada vida! É minha solidariedade excessiva, utopicamente crente, comunista, boba, aliada a uma incapacidade de análise, de encadeamento dos fatos, que me irrita .
Estamos, sem exceção, expostos ao engano, à trapaça, à soturna lascívia feroz que nos arranca a paz e nos gasta a beleza do mundo. Mas analisando tamanha humilhação, verás que o fato que me ocorreu é coisa que fartura a descrença do indivíduo.

Observe friamente os acontecimentos, veja se não tenho razão:

Cheguei à Mangabinha faz sete meses, visando alcançar autonomia econômico-financeira, com o funcionamento de uma mercearia. Abertas as portas, as pessoas daqui, baianos exemplares, vieram com sua curiosidade conhecer o lugar, arrumar conteúdo para os fuxicos que nos une e distrae. Passada a primeira semana, já tínhamos inclusive uma cadela vira-lata tomando conta da porta em meio ao furdúncio das crianças comprando doce. Tudo conspirava a formação de um cenário romantissíssimo.

Foi nessa época que conheci Uguinha. Uguinha é uma moça baixa, atarracadinha, cabelo curto, bunda enorme, doida, doida mesmo, doida daquelas que não falam coisa com coisa. Tem uma risada muito engraçada, uma mistura de grito com gargalhada, que fica mais cômico ainda com a aparente falta de motivo pra tamanho transbordamento de alegria.
Pois então... foi essa moça que me enganou por seis meses!
Na primeira vez que entrou no mercadinho, me fez uma porção de perguntas:
- De quem é esse menino?
Meu e de Brisa
- Quem é aquela mulher que estava aqui? (gargalhada)
Brisa
- Cê é casado com ela, é?
Sou
- Você mora onde? (gargalhada, mão na boca, balanços... a mulher quase se estrebuchou no chão de tanto rir)
Segundo andar
Por aí eu já tirei que ela era doida, as outras visitas só fizeram confirmar minha primeira impressão.
Um dia Uguinha me apareceu dizendo que não estava se sentindo muito bem, que tinha vomitado e que estava um pouco tonta. Foi aí que reparei sua barriga oblíqua:
- Cê tá grávida, Uguinha?
Era a segunda semana de funcionamento do comércio e ela já tinha uma barriga de cinco pra seis meses de gestação. Quando fiz a pergunta, ela me lançou uma expressão, filha duma mãe, uma expressão tão descarada, mas tão descarada... levantou o rosto lentamente, botou uma risadinha no canto da boca e largou um "tôôô" que chega deu pena da miserável!
Daí em diante, toda vez que Uguinha chegava era uma história: e que o namorado fez isso, e que a sogra fez aquilo, e que a enfermeira demorou para atender, e que o ex-namorado estava com ciúmes, me explicava porque preferia um e não o outro, chorava, copiosamente, chorava... um suplício, meu deus!
Sempre preocupado com o bem estar das grávidas no mundo, puxava cadeira, dava atenção, água, pedia para que ela não se exaltasse, perguntava se estava se alimentando direito, dava corretivo nos meninos zoadentos... ela esbuguelava o zóio em mim, ficava como se estivesse vendo um bicho estranho e distante, esmiuçando meus movimentos. Dava vontade de perguntar: Tá viajando é Uguinha? Mas ficava na minha, por conta do estado sensível dela. Brisa já havia fechado a cara pra Uguinha fazia tempo, e vivia me dizendo que a moça estava afim de mim.
Funcionamos o mercadinho por sete meses. Dois dias antes de passarmos o ponto, Uguinha atravessou na porta gritando com Consul, outra figura, que estava longe, conversaram alguma coisa e Uguinha danou a rir.
Foi nessa hora que descobri tudo, impressionante!
A barriga de Uguinha continuava no mesmo lugar!
Fia da peste!

quinta-feira, 12 de março de 2009

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

20º alvorecer - Parte de uma entrevista com o bom véi, Ferreira Gullar



Mas hoje a globalização não está fazendo esse particular desaparecer? O mundo e a arte não estão cada vez mais “internacionais”?
F.G. – É uma tendência que já havia na época. A arte se tornou uma mercadoria e o mercado de arte, que era nacional, se tornou internacional. A arte conceitual que se pratica hoje no Brasil é a mesma em todas as partes do mundo. Qual é a sua característica própria? Nenhuma. Quem se expressa através disso? Como já dizia o Mário de Andrade, o internacional é o nacional de algum país. O internacional é uma abstração. É um domínio de um país sobre todos os outros. A arte conceitual, no caso, é uma tendência norte-americana, uma tendência introduzida por Duchamp num país sem tradição pictórica e que se alastrou pelo mundo. Evidentemente, a pintura do Antonio Henrique Amaral é muito mais criativa, marcante e enriquecedora do que a obra desses artistas que fazem sempre o mesmo urinol do Duchamp, ou a mesma instalação, ou a mesma arte em vídeo – como ocorreu na última Bienal de São Paulo. É contra isso que eu me voltava e nesse sentido acho que – à parte algumas coisas de caráter ideológico que não têm mais cabimento – Vanguarda e subdesenvolvimento continua a dizer coisas válidas no que se refere à questão da essência artística.
Cult – Falando dessa relação entre avaliação estética e mercado, você acredita, que o expressionismo abstrato norte-americano se tornou hegemônico porque vem de um país hegemônico?
F.G. – Sim, ele se impôs. E as Bienais e exposições internacionais também são expressão desse sistema da arte, em que rola muito dinheiro e prevalece o prestígio internacional do país e de suas instituições museológicas. Recentemente, o presidente da Fundação Guggenheim – que está abrindo filiais em várias cidades do mundo, incluindo o Rio de Janeiro – declarou ao New York Times que hoje em dia é mais fácil conseguir dinheiro para fazer museus do que para comprar obras de arte. O museu não é mais feito para conter obras de arte, é o museu pelo museu.
Cult – É o triunfo do formalismo: não se trata mais da forma da obra, mas da forma que contém a obra...
F.G. – O próprio Guggenheim é o primeiro museu feito assim. O arquiteto Frank Lloyd Wright projetou o Guggenheim de um modo que não tinha nada para ser museu, com paredes em curva, rampas e complicações arquitetônicas em que o museu em si é que passa a ser importante, mesmo se lá dentro estão obras de Malévitch ou Mondrian. Foi nisso que eles se inspiraram para fazer, por exemplo, o Guggenheim de Bilbao [na Espanha], que é uma extravagância arquitetônica.
Cult – E onde está a arte brasileira com traços particulares?
F.G. – A arte brasileira é o Siron Franco, o João Câmara, o Franz Weissmann, o Marcelo Grassman, com suas gravuras belíssimas. É claro que esta arte não vai competir com esse mundo disparatado do Big Brother ou da arte em vídeo, que é uma coisa chatíssima e que só existe para curadores. As pessoas vão procurar onde está o ser humano, que muitas vezes pode estar numa pequena gravura ou num quadro. Há um ano eu assisti a um espetáculo na Urca, para um público de cinco pessoas, encenado no quarto de uma casa. Sabe o que estava sendo encenado lá dentro? Crime e castigo [adaptação do romance de Dostoiévski], uma experiência incrível. Enquanto o mundo vai ficando globalizado e massificado – o que vai contra o ser humano, porque ninguém nasceu para morar em cidades do tamanho de São Paulo ou da cidade do México e por isso as pessoas vão se juntando e criando pequenas tribos –, a verdadeira arte está sendo feita para pequenos grupos de pessoas que ainda se comovem.
Cult – Isso inclui a poesia?
F.G. – O poeta não está nisso. A poesia, felizmente, não tem mercado e por isso não foi arrebatada por essa loucura. Eu costumo dizer que a poesia não vale nada, não tem nenhum valor... no mercado; ela só tem valor para as pessoas que a amam.

Parte de entrevista publicada na Revista Cult nº 60 da Editora 17 - http://www.revistacult.com.br/
Entrevista completa: http://www.culturapara.art.br/opoema/ferreiragullar/ferreiragullar_ent.htm

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

19º alvorecer - Pesadelo


Essa noite tive um pesadelo desgraçado. Deus me livre!
Um ex-professor meu, muito dedicado por sinal, apareceu aqui na porta
pedindo piedade, uma noite de sono apenas. Prontamente insisti que pusesse as sandálias e a cerimonia do lado de fora. Assim se deu.
- Entre, professor.
Deixei-o na sala, peguei minha toalha e fui tomar banho. No que sai do boxe, peladão, dei de cara com o malandro, cheio de lascívia, me esperando.
Era tudo ou nada!
Como quem numa guerra, parti pra cima do pederasta, piquê-lha porra, rumê-lhe a desgraça, quebrei-o no pau! Foi um furduncio só.
Acordei e a briga nem tinha acabado. Pelo andar da carruagem, acho que venci.
Faz três dias, conheci esse poema de Ferreira Gullar, lembrei-me dele:

MAU DESPERTAR

Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva.

(Ferreira Gullar - agosto 1977)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

18º alvorecer - Manoel de Barros


Poeta é um ente
que lambe as palavras
e depois se alucina.


I

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

I
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.