sábado, 26 de fevereiro de 2011

65º Alvorecer - Haikai e as lições naturais(parte27)


tac ta tac ta tac tac

datilografa o músico

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batidas de tamborim

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

64º Alvorecer - Saudação Segunda - Ezra Pound


SAUDAÇÃO SEGUNDA

Fostes louvados, meus livros,
porque eu acabara de chegar do interior;
Eu estava atrasado vinte anos
e por isso encontrastes um público preparado.
Não vos renego,
Não renegueis vossa progênie.

Aqui estão eles sem rebuscados artifícios,
Aqui estão eles sem nada de arcaico.
Observai a irritação geral:

"Então é isto", dizem eles, "o contra-senso
que esperamos dos poetas?"
"Onde está o Pitoresco?"
"Onde a vertigem da emoção?"
"Não ! O primeiro livro dele era melhor."
"Pobre Coitado ! perdeu as ilusões."

Ide, pequenas canções nuas e impudentes,
Ide com um pé ligeiro !
(Ou com dois pés ligeiros, se quiserdes !)
Ide e dançai despudoradamente !
Ide com travessuras impertinentes !


Cumprimentai os graves, os indigestos,

Saudai-os pondo a língua para fora.
Aqui estão vossos guisos, vossos confetti.
Ide ! rejuvenescei as coisas !
Rejuvenescei até The Spectator.
Ide com vaias e assobios !

Dançai a dança do phallus
contai anedotas de Cibele !
Falai da conduta indecorosa dos Deuses !

Levantai as saias das pudicas,
falai de seus joelhos e tornozelos.
Mas sobretudo, ide às pessoas práticas -
Dizei-lhes que não trabalhais
e que viverei eternamente.

(tradução de Mário Faustino)



domingo, 20 de fevereiro de 2011

63º Alvorecer - Músicas

Uma vez perguntei a um amigo, que respeito os ouvidos, o que ele pensava sobre o Cordel:
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-Há Mither, o cara é muito desafinado, não gosto!
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Aquilo me intrigou porque vinha de uma pessoa que ouvia Pink Floyd, e quem ouve Pink Floyd ouve passarinhos misturados com sinos, aquelas coisas eletrônicas, explosões, efeitos, gritos, transitoriedade de ambientes caóticos para melódicos e suaves, ouve a transformação do que em uma tradição seria visto como ruído, para uma informação musical, percebe a ampliação do universo, a dilatação da linguagem. Portanto deveria estar pronto para o Cordel.

Vejamos o que digo no clip de Mademoiselle Nobs:


Mas realmente o Cordel tem uma poética diferente. Apesar de dialogar em algum nível com esse código amplificador, do qual o Pink Floyd faz uso, o Cordel tem muito dos mouros, da tradição dos cantadores, dos tambores, afro em muitas pegadas, da rica literatura sertaneja e é uma banda de afirmação nordestina, brasileira, com um apelo mais visceral, cheirando a messiânico. Outro universo. Outra estética.




Na década que passou o Cordel significou uma melhores expressões artísticas que tomei contato. Me trouxe de volta a sensação que tive com alguns discos de que "isso está acontecendo!!" de vibrar, de sentir a vitória daqueles que estão no subterrâneo, lapidando a mais bela força do que há de vir, de vê-los e reconhece-los vencedores na luz. Amém.

62º Alvorecer - Higuita





Essa defesa de Highita foi demais!
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Era um craque e deixou, como poucos, sua marca. Um goleiro passional, muitas vezes despojado, provocante, abusado e criativo.
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Tinha mania de jogar como jogador de linha, maltratando o peito dos seus torcedores e dos adversários. Ficavam todos com o coração na mão, sem saber o que iria acontecer. Era imprevisível.
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Driblava, batia falta, chegava rasgando... aff
Salve, Higuita!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

61º Alvorecer - Aos educadores


Estimular o exercício de formação é ofício do educador. A formação está vinculada ao caráter. São camadas, dimensões, calíbres temporais, espaciais, fisiológicos, econômicos, étnicos, etc, interpenetrantes, que sustentam as possibilidades do exercício formativo.
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Me impressiona como descobrimos na atividade educadora o fluxo das responsabilidades, a projeção da dissolução da ortodoxia tradicional Educador-educando. Digo isso baseado, além de outras coisas, numa experiência muito feliz que tive hoje: Amanda Gava, minha aluna da 7º série, fez a apreciação de alguns haikais que expus em sala. Sua simplicidade na interpretação, honestidade, interesse, espontaneidade, pontualidade, seu prazer estavam expostos, valorizando os poemas. Fiquei muito entusiasmado. Seu texto enxuto me renovou as águas, trouxe fôlego.
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Lembrei-me de Leminsk, quando ele diz que aquele que dá poesia ao poema é o poeta. Seja ele o poeta que escreve ou o que lê.

Ele diz isso numa passagem curta do vídeo, mas não nos furtemos de assisti-lo por inteiro.
Vejamos:





Esse trecho da fala do paranaense está em comunhão com o poema do sul-baiano Marcos Vinícius Rodrigues, que diz assim:



Ao Leitor

Decide por mim esse verso
que o dia se faz pressa.

Hesitar é interdito e
as horas reclamam passar

Decide a rima, sentencia a métrica,
que não há mais o que eu possa.

Todo poema implora
um leitor que o faça.


Portanto, é na projeção estética da obra e suas delimitações formativas que devemos buscar a valoração do caráter, do sentido do autor, da obra, do povo. E é nesse pé, é nessa dança, que ponho minha crença na educação. Na visualização de uma imagem onde a tortura do formalismo escolar está vencida, onde não se potencializa as "características comuns dos sujeitos, em detrimento de suas singularidades e capacidade criativa", onde o caráter do nosso povo está fogoso de coragem, fluidez e liberdade. Amém.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

60º Alvorecer - Paciência

Cartunista, designer e poeta Nildão:

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

59º Alvorecer - Arte e dinheiro, ô cheiro bom!



o quadro

Marx cravou a moral que diz que o escritor não deve escrever para ganhar dinheiro, mas ganhar dinheiro para escrever. Me exercito para não virar um moralista, mas essa sagacidade do barbudo acertou em cheio. Ela está pejada de sentido e pode ser direcionada para as artes em geral.
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A arte é uma invenção nossa, que não se resume à dimensão racional, tecnicista, é uma sabedoria que trata da estese, da sensibilidade. Com ela nos conectamos a camadas e camadas da realidade. Subimos e descemos montanhas, alçamos perspectivas, mutamos.


pink floyd

De acordo com a miração do comunista, podemos distinguir níveis a partir da noção de comprometimento do artista: Se é um artista com autonomia, vertical, ou um publicitário, empenhado apenas em ganhar dinheiro.
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Não conseguimos entender a diluição, o recuo na obra de tantos artistas se não levarmos em conta a questão financeira, o arrocho e concorrência na classe, a sedução dos produtores-financiadores, etc, etc.
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Quem diz que o mercado regula esquece de dizer que ele não regula muito bem. Com tanta coisa crua saindo do forno, descartáveis, sem resistência, não dá pra pensar muito diferente a respeito da crueldade desses tempos. Talvez vivamos a era do lixo.
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Ocorre que não há entulho impeça a dignidade na vida.
Fiquemos com um poema de Edson Cruz:

UIVO

a vida é breve e urge ser plena
mesmo que o sopro leve
o ânimo dessa pena
e a dor urre sob o acúmulo de neve
VIVO

mundo livre s/a



sábado, 5 de fevereiro de 2011

58º Alvorecer - Noite Severina

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canção magna de Lula Queiroga e Pedro Luís

foi durante um bom tempo, cume

ponto alto das apresentações da Manzuá (banda em que toco)

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Apresentavamos a música enroscada no poema de Adélia Prado

e não me privarei de elogiar

a interpretação dada por Brisa

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Por não ser cruel, te poupo tempo e transcrevo o texto:

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A Serenata

Uma noite de lua pálida e gerâneos

ele viria com boca e mãos incríveis

tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero

e só vejo dois caminhos:

ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobro

o que não for natural como sangue e veias

descubro que estou chorando todo os dia,

os cabelos entristecidos,

a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que vem,

de qe modo vou chegar ao balcão sem juventude?

A lua, os gerâneos e ele serão os mesmos

- só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela se não for doida?

Como a fecharei, se não for santa?